Crédito só cresce se juro real cair, dizem analistas
Na posse, Lula promete emprestar 50% do PIB
LEANDRA PERES
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O aumento no volume de crédito para 50% do PIB até 2010, meta fixada anteontem pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu discurso de posse, só será possível se a taxa de juros continuar caindo ao longo do segundo mandato. De acordo com analistas do mercado financeiro, uma redução nos juros reais para cerca de 6% ao ano viabilizaria um crescimento dos empréstimos habitacionais suficiente para o governo cumprir seu objetivo.
"É um número possível. O que falta no Brasil é crédito imobiliário. Já houve algum alongamento nos prazos dessas operações, e o cenário atual de redução nos juros é essencial para que esse mercado deslanche", explica o economista Roberto Padovani.
Durante o primeiro mandato do presidente Lula, o volume do crédito destinado pelos bancos ao setor privado saltou de 23,4% do PIB, em dezembro de 2002, para 32,8% do PIB, em novembro do ano passado.
Esse percentual é o mais alto desde que o BC (Banco Central) começou a calcular esse indicador, em 1988. O único momento em que o crédito alcançou patamar semelhante foi em fevereiro de 1995. Turbinado pela redução da inflação com o Plano Real, em 1994, e pelo ganho de renda, os bancos aumentaram os empréstimos, que totalizaram 31,5% do PIB naquele mês.
O crescimento de 7,5 pontos percentuais no crédito no primeiro mandato do presidente Lula foi resultado da combinação de um cenário externo sem crises econômicas, uma redução acentuada nos juros desde setembro de 2005 e mudanças na legislação, entre as quais o crédito consignado, que chegou a crescer 50% nos 12 meses encerrados em novembro.
"O crédito para pessoas físicas e jurídicas vai continuar crescendo, mas num ritmo menos acelerado que o dos últimos quatro anos. O crédito imobiliário pode elevar o percentual para cerca de 40% do PIB, mas acho que a meta de 50% é muito ambiciosa para quatro anos", afirma o economista Caio Megale, da Mauá Investimentos.
Primeiro Mundo
Os empréstimos feitos no Brasil para a pessoa física já estão num percentual bastante próximo a outros países em desenvolvimento. No Chile, por exemplo, os recursos que o sistema financeiro empresta para o consumo são de cerca de 8% do PIB, percentual muito próximo ao brasileiro, que está na casa de 9% do PIB. No México, o percentual é de aproximadamente 5% do PIB.
O que faz a diferença na comparação internacional é exatamente o crédito imobiliário. Enquanto no Brasil esses financiamentos equivalem a só 2% do PIB, no Chile chegam a quase 15% do PIB, e, no México, a cerca de 10% do PIB.
Para o economista Joel Bogdanski, o Banco Itaú, além da queda dos juros, será preciso que a renda do trabalhador continue crescendo nos próximos anos para que o crédito imobiliário aumente num volume suficiente para influenciar as estatísticas oficiais.
"Os bancos trabalham com projeções bastante otimistas para aumento do crédito neste ano, da ordem de 10% a 15%. O setor imobiliário é o que pode puxar o crédito, mas o problema é que o trabalhador ainda não tem renda suficiente para embarcar num financiamento imobiliário de longo prazo", diz o economista.
Para ele, a meta estabelecida pelo presidente Lula não é irreal ou impossível, mas exigirá esforço.