Jogar pedra é muito fácil. Dificil é ter propostas sérias.
Qual a proposta do empresário da Phillips para:
1-como fazer uma reforma politica num país em que os partidos preferem mudar de nome, mas nao fazem a reforma necessária?
2-como fazer uma reforma política decente, como controlar os gastos nas campanhas politicas?
3-como acabar, ou pelo menos reduzir a corrupçao estatal, no governo federal, nos estados, nas prefeituras?
4-como baixar a taxa de juros a um nivel atrativo aos investimentos?
5-como educar mais, como fazer a inclusao digital do cidadao brasileiro?
Leiamos a entrevista do indignado empresario. Ele me lembra os seguidores do PSDB, aqueles que preferem ficar em cima do muro. Ser ou nao ser, eis a questao. Criticar é fácil. Difícil é fazer. Diz que o movimento nao tem partido. Mas critíca muito. Coisas do Brasil. Somos uma sociedade muito dividida. Há dificuldade em tomar posiçao coerente.
ENTREVISTA
PAULO ZOTTOLO
Ricos não são menos brasileiros que pobres, diz o líder do "Cansei"
Empresário afirma que não é menos brasileiro por ter dinheiro e nega que movimento pretenda depor o governo Lula
GUILHERME BARROS
FOLHA - O movimento vai apresentar alguma proposta?
ZOTTOLO - Se tivesse proposta seria um movimento partidário. Como não é partidário não pode ter proposta. Para mim, o "Cansei" é um convite à meditação. Isso é uma ajuda que o povo brasileiro deve dar ao governo. Eu quero que o governo se dê bem, não quero que o governo se dê mal. Eu posso ter minhas diferenças com o PT, isso é uma coisa.
Eu posso não concordar com as atitudes do PT, mas o que eu não concordo é achar que qualquer movimento que se faça de cidadania neste país ou é de oposição ou é de elite. Este país tem que parar de ser visto como país: precisa ser visto como nação. Qualquer situação, qualquer movimento, qualquer opinião rapidamente é dividido entre a elite e os pobres. Para se tornar uma nação, o objetivo tem de ser comum.
É esse tipo de reflexão que esse movimento "Cansei" deveria estar fazendo. Quando eu emito uma opinião dizendo "cansei de empresário corruptor" ou "cansei de bala perdida", não quero ser visto como elite branca ou elite branca de Campos do Jordão. Para que isso? Para que essa ofensa toda? Eu quero ser visto como brasileiro que chegou lá. Não preciso me sentir culpado porque eu sou rico. Não roubei ninguém.
Não sei por que ainda se mantém essa distância entre a classe trabalhadora e a classe empresarial, como se fôssemos inimigos, e não somos. Essa é a diferença entre país e nação. O "Cansei" deveria ser um motivo de reflexão para tudo isso.
FOLHA - O que acha dessa reação tão inflamada do governo Lula?
ZOTTOLO - Porque ele acha que é uma coisa partidária. Porque neste país, e não nesta nação ainda, qualquer coisa é vista como partidária, é vista como um movimento de alguns segmentos, e não é. É um movimento puramente nacional. O governo tem que aderir ao movimento. O presidente Lula deveria unir forças, e não dividir cada um para um lado.
FOLHA - O que acha da crítica de que esse movimento está sendo feito por endinheirados?
ZOTTOLO - É uma situação para reflexão. Todo mundo tem o direito de se manifestar.
FOLHA - Qual a responsabilidade do governo para essa situação?
ZOTTOLO - Eu não acho que a situação do Brasil esteja assim por causa do governo do PT. O Brasil está mal por várias outras histórias. Eu não sou petista, mas tem várias atitudes do PT que eu aplaudo, como tem outras que eu absolutamente não aplaudo, como tem várias atitudes do PSDB como oposição que eu rejeito, como outras eu aplaudo. O que eu não aplaudo mais é a oposição. A oposição neste país é destrutiva. A oposição que o PT fez ao governo do PSDB atrapalhou o país. A oposição que os partidos de oposição fazem hoje ao governo atrapalha o país. No final, como nação, o objetivo é um só.
Não existe mais pauta de direita ou de esquerda, não existe mais pauta de elite ou pauta dos pobres, o que existe são alguns movimentos que são comuns que têm que ser realizados por qualquer partido, só que quando um está no poder o outro atrapalha sabendo o que é necessário. A oposição, seja no momento atual ou na época do PT, não pensa no Brasil, e sim no poder. Isso atrasa o país. Nós temos que virar nação.
FOLHA - Apesar disso tudo, os números da economia são positivos.
ZOTTOLO - Os números da economia estão bons, mas não sei se mede-se um país pelos números da economia. Eu tenho salários aqui que são 100 vezes maiores do que qualquer pai dessas famílias ali [e ele aponta para a parede em frente a sua mesa onde estão dispostas 16 molduras em preto e branco com cenas de favelas em diversas cidades brasileiras].
Por que eu mantenho esse quadro? Para toda hora eu estar pensando na realidade que é o meu país. Para não viver num mundo cor-de-rosa de sair daqui, pegar um helicóptero, pegar o meu motorista de carro blindado e andar no meu iate [ele tem um barco a vela]. Isso [as fotos na parede] é a realidade do meu país. Se a economia vai bem e isso continua existindo, o país não vai bem. O que mais me toca nessas fotos é que pela pior situação que essas pessoas vivem todas elas tem um ar de otimismo e de alegria. O grande mérito do PT foi não ter mexido muito na economia, de não ter inventado muita novidade. Nesse ponto, o Lula teve uma cabeça fabulosa.
Sabe por quê? E ninguém está pensando nesse assunto. As pessoas discutem o conceito de esquerda-direita, de rico-pobre, mas se esquecem que o Lula está cercado da elite. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, é o quê? Ele faz parte da elite ou dos movimentos populares? O senhor Mercadante faz parte da elite ou dos movimentos populares? Marta Suplicy veio de onde? Agora, para que essa divisão? Para mim, são brasileiros que estão trabalhando. Se um tem dinheiro a mais ou tem dinheiro a menos, não lhe dá mais ou menos direito de ser brasileiro. Ou será que quanto mais pobre eu for mais brasileiro eu sou?
FOLHA - O "Cansei" vai continuar?
ZOTTOLO - Vou continuar até a hora em que perceber que virou uma coisa partidária. A Philips está nisso desde que movimento seja apartidário. Não estou aqui para derrubar o governo. Mas se eu puder usar a força da Philips e a minha força para derrubar esses conceitos de direita-esquerda, pobre-rico, de elite branca, de elite de campos de Jordão, de movimento Oscar Freire, vou usar. Pelo amor de Deus, nós já passamos por esta fase. O pior é que eu nunca passeei na Oscar Freire.