ABALOS NA REPUBLICA
BOLETIM SERIDOENSE:
Os ultimos acontecimentos abalam a Republica. Estamos assistindo em capitulos. O nosso sistema republicano anda meio de lado. Estamos as vesperas de eleicoes municipais. Estamos perplexos com os ultimos acontecimentos. Juiz manda prender, Supremo manda soltar. Puxa, quem tem razao?
A nova ordem mundial tem premiado o Capital mais que o Trabalho. O equilibrio busca-se ha muito tempo e em todos lugares. Mas o Capital é mais agil, lubrifica as engrenagens podres da Republica e tem premiado os detentores do poder economico com suas iniquidades.
O Trabalho é mais lento, mesmo por sua natureza, publico ou privado.
A dificuldade é equilibrar o tecido politico, com as variaveis economicas ditadas pelo poder economico que dificultam a atuacao do Estado, do Estado brasileiro.
O interesse publico x interesse privado, um eterno embate. Como numa partida de futebol, com o arbitro tomando decisoes em prol de um ou outro, deixando a galera indignada.
TENDÊNCIAS/DEBATES
Crônica de uma liberdade anunciada
FREI BETTO
Não houve surpresa. O corruptor pau-mandado disse que só a primeira instância preocupava o chefe. Dito e feito, 2 vezes
|
NÃO HOUVE surpresa. O corruptor pau-mandado disse com todas as letras, gravadas pela Polícia Federal, que o chefe se preocupava "apenas com o processo em primeira instância, uma vez que no STJ e no STF ele resolve tudo".
Sabia o que dizia. Dito e feito, em dose dupla. O chefe entrou na lista daqueles que, para certos ministros do STF, pairam acima da lei e reforçam a nociva cultura de que, como cantava Noel Rosa, "para quem é pobre a lei é dura", mas para quem é rico a impunidade fa(r)tura.
Vale a piada do político corrupto que surpreendeu o filho surrupiando-lhe a carteira e deu-lhe umas palmadas. "Mas você também rouba!", reagiu o menino. "Não te castigo por roubar, mas por se deixar apanhar em flagrante", retrucou o pai. Agora, nem o flagrante merece punição.
Vide as imagens gravadas pela PF em que aparece a dinheirama destinada a corromper um delegado daquele órgão. O ciclo vicioso se confirma: a Polícia prende, a Justiça solta. E alguns disso se aproveitam e fogem.
Ou a pena prescreve, sacramentando a impunidade e permitindo até que se candidatem a cargos públicos.
A corrupção, aliada à impunidade, de quem é filha, já indignava o autor de "A Arte de Furtar", escrito entre os séculos 17 e 18: "Se vossa casa, ontem, era de esgrimidor, como a vemos hoje à guisa de príncipe? E até vossa mulher brilha diamantes, rubis e pérolas, sobre estrados broslados? Que cadeiras são essas que vos vemos de brocado, contadores da China, catres de tartaruga, lâminas de Roma, quadros de Turpino, brincos de Veneza etc.?
"Eu não sou bruxo nem adivinho; mas me atrevo, sem lançar peneira, a afirmar que vossas unhas vos granjearam todos esses regalos para vosso corpo, sem vos lembrarem as tiçoadas com que se hão de recambiar no outro mundo. Porque é certo que vós os não lavrastes, nem os roçastes, nem vos nasceram em casa como pepinos na horta".
E aponta as ramificações do enriquecimento ilícito nas estruturas de poder: "Furtam pelo modo infinito, porque não tem fim o furtar com o fim do governo e sempre lá deixam raízes, em que vão continuando os furtos. Finalmente, nos mesmos tempos não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, mais-que-perfeitos e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse".
Em "A Desordenada Cobiça dos Bens Alheios - Antiguidade e Nobreza dos Ladrões" (1619), Carlos García diz que a arte da ladroagem é superior à alquimia, pois do nada faz tudo: "Haverá maior nobreza no mundo que ser cavaleiro sem rendas e ter os bens alheios tão próprios que se pode dispor deles a seu gosto e vontade, sem que lhe custe mais que pegar-lhes?".
E denuncia o engano em que muitos vivem, "crendo que foi a pobreza a inventora do furto, não sendo outros senão a riqueza e a prosperidade".
Padre Vieira, nascido há 400 anos, alerta em seu "Sermão do Bom Ladrão" (1655): "Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco, estes, sem temor nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam".
Sim, não temem as instâncias superiores da Justiça, pois não há o perigo de ficarem atrás das grades. Soltos, continuam a furtar o erário, e enforcam, nas negociatas, a cultura da decência, da ética e da justa legalidade.
E ainda há quem proteste por ver a mídia acompanhar as operações policiais. Quem reclama quando as viaturas cercam a favela com brucutus e "caveirões"? Reza o direito que, se o crime é clandestino, a repressão e a punição devem ser públicas, para servir de exemplo e coibir potenciais bandidos, sejam eles de chinelos de dedo ou de colarinho-branco.
Segundo Cícero, "o maior estímulo para cometer faltas é a esperança de impunidade". Enquanto o nosso Código de Processo Penal não sofrer profundas modificações, os bandidos poderão repetir em entrevistas que só temem a Polícia, porque a Justiça é cega às suas práticas criminosas.
Talvez fosse mais sensato acatar a proposta de Capistrano de Abreu e reduzir a Constituição a dois artigos: "Artigo 1º: Todo brasileiro é obrigado a ter vergonha na cara. Artigo 2º: Ficam revogadas todas as disposições em contrário".
CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO , o Frei Betto,63, frade dominicano e escritor, é autor de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros. Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br
VINICIUS MOTA
Prenda, arrebente, proíba
OS VALORES liberais, na vida civil e na economia, não são populares no Brasil. Pesquisas sobre as convicções da sociedade costumam revelar apreço por facetas do conservadorismo: leis duras, repressão, estatismo. Construção histórica formada no embate contra um Estado absolutista, o indivíduo -conceito que reserva, para cada pessoa, uma esfera de autonomia, responsabilidade e capacidade- faz menos sucesso aqui.
Não surpreende, portanto, o apoio massacrante que têm recebido as prisões de um banqueiro, um especulador e um ex-prefeito. A detenção preventiva de um casal acusado de assassinar uma criança, em São Paulo, tornou-se um espetáculo de Coliseu romano.
São com freqüência recebidos a pedradas retóricas os que afirmam algo razoável: em todos esses casos, os acusados não representam ameaça física para a sociedade e sua capacidade de prejudicar a coleta de provas é nula ou independe de estarem soltos. A prisão antes de uma sentença deveria ser exceção, e não regra como está se tornando.
Defender o devido processo legal nesses casos é reforçar garantias de todos contra arbitrariedades de agentes públicos. Na ânsia de vingar "500 anos de impunidade", campeia a desinformação. Confundem-se prisão temporária, algemas e execração com punição; habeas corpus com absolvição. Perde-se o foco, que é a lentidão absurda do Judiciário, tanto mais vagaroso quanto mais rico é o acusado.
O pior é que se acumulam atitudes de truculência, paternalismo e tutela do Estado e seus representantes, com respaldo popular. Incapaz de aplicar uma lei de trânsito já rígida em relação ao consumo de álcool, o governo chancelou a "tolerância zero" vinda do Congresso. Condutores são coagidos a produzir provas contra si e ameaçados de cadeia com dois copos de chope.
Há gente no governo e no Legislativo disposta a restringir, e até proibir, propaganda de alimentos com teor de gordura, açúcar e sal acima de níveis considerados saudáveis, como se o público fosse incapaz de decidir sobre a sua dieta.
A cúpula da Justiça também entrou no jogo, investida pelo espírito da "moralização" e aplaudida. Instituiu por sua conta um tribunal de bons costumes políticos para julgar a "infidelidade partidária". Ajudou a produzir um monstrengo que inviabiliza a livre expressão na internet em época de eleição.
Tanto ativismo judiciário inspira outros estragos na instância inferior, com juízes condenando veículos da imprensa que entrevistam candidatos. Tiras e procuradores tentam intimidar, inclusive com ameaça de prisão, jornalistas que cumprem seu papel de informar.
As autoridades apertam o torniquete, a platéia vibra, mas não se vê a advertência de que alimentar o Leviatã faz mal à democracia.
vinimota@folhasp.com.br
VINICIUS MOTA 0é editor de Opinião .