Painel
RENATA LO PRETE - painel@uol.com.br
Vale tudo
O início da campanha na TV deflagrou uma corrida dos candidatos da base para ter Lula -seja como for- no palanque. A alta ansiedade foi sentida ontem em reunião do presidente com seu conselho político. Três candidatos apareceram de "bico": Jô Moraes (PC do B), de Belo Horizonte, Walter Pinheiro (PT), de Salvador, e Gastão Vieira (PMDB), de São Luís.
Jô foi a mais ousada. Quando Lula disse que quem quiser poderá usar fotos suas na propaganda, ela sacou o celular para registrar a imagem do presidente ali mesmo. "Lula é parte da minha vida política desde 1989", declarou a adversária de Márcio Lacerda (PSB), apoiado pelo prefeito petista Fernando Pimentel e pelo governador tucano Aécio Neves.
Tenho dito. "A volta da Marta à prefeitura é a melhor coisa que pode acontecer a São Paulo neste momento." É Lula falando, hoje, no programa de estréia da candidata do PT no horário eleitoral.
Só dá ela. Quem não tem Lula quer assegurar Dilma Rousseff. Depois de ter perdido a ida da ministra da Casa Civil a Porto Alegre, na qual foram gravados depoimentos dela para vários petistas gaúchos, Pepe Vargas, líder das pesquisas em Caxias do Sul, decidiu mandar equipe de televisão a Brasília para colocar a mãe do PAC em seu programa ainda nesta semana.
Efeitos especiais. José Priante (PMDB) estreou ontem em Belém inserções em que Lula aparece lhe cobrindo de elogios. O detalhe é que as imagens foram gravadas em 2006. O PT recorreu à Justiça Eleitoral na tentativa de tirar a "pegadinha" do ar.
Guerra santa 1. A ala da Assembléia de Deus em campanha contra Luizianne Lins (PT) em Fortaleza preparou nova leva de outdoors para espalhar na capital cearense. Comparam a candidata à reeleição a Jezebel. "Ela é contra a Bíblia e o povo de Deus."
Guerra santa 2. Depois da decisão que mandou recolher o primeiro lote de outdoors, a prefeita conseguiu que, em cinco dias, a Justiça Eleitoral determinasse a quebra do sigilo bancário dos financiadores. O objetivo é descobrir se algum adversário está bancando o material.
Contencioso. A fúria evangélica contra Luizianne começou quando ela decidiu (e depois recuou) abolir a exigência de manter Bíblias em bibliotecas públicas. O apoio da prefeita à união civil de homossexuais também ajudou.
Moita. O DEM, sempre o primeiro a gritar "pega ladrão" diante de escândalos no governo Lula, se faz de morto quanto às denúncias contra o primeiro-secretário Efraim Moraes (PB), investigado pela PF por suposto envolvimento em fraude na contratação de empresas pelo Senado. "Não há nada de consistente contra o senador", defende o presidente da sigla, Rodrigo Maia.
Em forma. A nova sensação na Assembléia gaúcha é um game de internet no qual o vice-governador Paulo Feijó (DEM), pivô do escândalo do Detran, aparece levantando halteres. O número dois da tucana Yeda Crusius é dono de academia em Porto Alegre.
Tipo exportação. O ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, recebe na próxima segunda-feira dirigentes de seis países africanos (Angola, Gana, Moçambique, Quênia, Tanzânia e Namíbia). O objetivo do encontro é fechar parcerias para a implementação, nesses locais, de programas similares ao Bolsa Família. Gana foi o primeiro a adotar a iniciativa, com ajuda técnica do Brasil.
Visita à Folha. Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, visitou ontem a Folha, a convite do jornal, onde foi recebido em almoço. Estava com Renato Parente, secretário de Comunicação Social do STF.
com VERA MAGALHÃES e SILVIO NAVARRO
Tiroteio
"A recusa da Polícia Federal em mostrar a fita inteira indica preocupação em evitar acesso a informações de impacto."
Do deputado GUSTAVO FRUET (PSDB-PR), sobre a resistência da PF em tornar público o áudio integral da reunião em que foi decidida a saída do delegado Protógenes Queiroz da Operação Satiagraha.
Contraponto
Domicílio eleitoral
A pequena comitiva brasileira que acompanhou a posse de Fernando Lugo no Paraguai chegou a Assunção com receio de ouvir um discurso inflamado pela revisão do Tratado de Itaipu. A fala do novo presidente foi moderada, mas, caminhando pela capital, Delcídio Amaral (PT-MS) e o diretor-geral da usina pelo lado brasileiro, Jorge Samek, encontraram um pequeno grupo que gritava:
-Itaipu! Itaipu!
O senador brincou com o amigo:
-Não sabia que sua popularidade era tão grande!
E completou:
-Você deveria se eleger deputado aqui, não no Brasil!
FERNANDO RODRIGUES
A farra na TV e no rádio
BRASÍLIA - É fácil falar mal do horário eleitoral no rádio e na TV.
Difícil é dizer qual a melhor solução numa democracia estável e justa.
O publicitário Washington Olivetto opinou a respeito na Folha: "Sou contra a obrigatoriedade. O eleitor deveria escolher o candidato pela cobertura da imprensa".
É uma fórmula idílica. Parte da grande mídia até já se ocupa de noticiar com imparcialidade candidaturas de interesse nacional. Mas haveria carnificina no interior do país, onde muitos políticos dominam os meios de comunicação.
Na vigência de um sistema com liberdade de expressão, é lícito que os políticos queiram se expressar por meio de propagandas quando começa a temporada de eleições. O problema é como regular esse direito. Certamente o melhor modelo não é o de países como os EUA, onde o tempo de TV precisa ser comprado pelos candidatos. Quem tem mais dinheiro prospera. Quem não tem, some do mapa.
No Brasil pós-ditadura, criou-se uma jabuticaba. Democratismo puro. Concedeu-se tempo amplo de TV e rádio a todas as siglas. Havia uma lógica inicial. A estrutura partidária estava em frangalhos. Era necessário dar oportunidade para que, à la Mao Tsé-tung, florescessem as mil flores.
Mas já se passaram 23 anos desde a volta do Brasil à democracia.
Há hoje 27 partidos registrados.
Fazem uma farra no horário eleitoral. É um desrespeito com os eleitores. Em 2004, seis siglas tiveram 72,7% dos votos para prefeito (PT, PSDB, PMDB, DEM, PP e PDT).
Agora, pela enésima vez, o Planalto sugere uma cláusula de desempenho eleitoral. Os nanicos teriam um tempo de fato limitado.
Será o maior legado de Lula para a política. Mas, como é praxe nesses casos, é melhor ver para crer.
frodriguesbsb@uol.com.br
RUY CASTRO
Descompasso
RIO DE JANEIRO - De 1973 a 1975, morei fora do Brasil. Não porque fosse obrigado, mas a serviço mesmo, numa revista em Portugal. Nesses três anos quase completos, vim duas vezes ao Rio, de férias. Mas férias são férias, e não me preocupava em tirar o atraso sobre o que acontecera na minha ausência. Com isso, coisas importantes ficaram em branco para mim -porque ainda não existiam quando fui embora e já tinham acabado quando voltei de vez.
Uma delas foi o Secos & Molhados. Em Lisboa, ouvia falar de um grupo musical andrógino em voga no Brasil, mas não tinha idéia do que significava. E continuei sem ter porque, quando voltei, eles já se tinham desfeito. Ney Matogrosso, claro, revelou-se individualmente; ouvi-o e fiquei seu fã.
Outro que foi do apogeu à queda na minha ausência foi Raul Seixas. Todas as canções que fizeram a sua glória surgiram no período. Ou em parte dele, porque, quando cheguei de volta, ninguém mais parecia saber que ele existia. E assim continuou até sua morte, em 1989, quando, ato contínuo, Raul foi promovido a sacerdote, profeta, deus etc.
Para se ver o risco de se passar algum tempo fora. Um amigo meu marchou para o exílio em 1969 e, quando voltou, dez anos depois, causava certo desconcerto em sociedade ao dizer coisas como "é uma brasa, mora", "fulana é duca" e "mamãe passou açúcar ni mim", que já não se usavam há séculos.
Estou contando isto porque, num único mês em que andei pelas estranjas, em junho último, houve uma operação chamada Satiagraha, envolvendo figurões em tramóias, propinas e subornos. A Polícia Federal prendeu um banqueiro e uma fieira de bagrinhos. Antes que eu voltasse, a maioria já estava na rua. E, na semana passada, foi solto o último preso. Mais um pouco, e eu juraria que a operação não existiu.